PARÁBOLA DA FIANDEIRA E SEUS NOVELOS BRANCOS
![]()
Imagem processada pelo ChatGPT
*
PARÁBOLA DA FIANDEIRA
E DOS SEUS NOVELOS BRANCOS
*
Dobava brancos novelos
Da lã mais quente e macia
Que naquela aldeia havia...
(ninguém podia era vê-los...)
Dobravam-se-lhe os cabelos
Em tamanho, e - que ousadia! -
Quanto mais envelhecia
Menos podia esquecê-los...
Foi dobando até esquecer-se
E esqueceu-se até perder-se
Nos seus novelos de lã
Quando umacerta manhã,
Já cansada de assim ver-se,
Cortou os cabelos cerce...
Grita uma: - Ensandeceu!
Se não podia mantê-los
Devia optar por sustê-los
Num "puxinho", como o meu...
Dizem outras: - Que sei eu?
Curtos, ficam tão singelos
E para quê qu`rê-los belos,
Quando assim se envelheceu?
Cortou cerce a cabeleira,
Mas depressa aconteceu
Que ela em dois dias cresceu
E ficou de novo inteira...
Volta a velha fiandeira
Ao ofício que era o seu:
Outro novelo nasceu
E outro e outro... uma carreira
De enoveladas madeixas
Que em vez de trazerem queixas
Lhe traziam alegrias...
Fia o teu branco tesouro
Que antes branco do que louro
Se quer aquilo que fias!
A velhinha atarefada
Doba ainda, ensimesmada
E, perdida no vazio,
Esvai-se a voz do mulherio
Que, bem alta, ou sussurrada,
Fala, fala e não diz nada...
*
Maria João Brito de Sousa
25.07.2016 - 15.34h
***
Composição poética reformulada e aumentada
