MISÉRIA ENDÉMICA - Reedição
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SEIS DÉCIMAS PARA BEM AUSCULTAR E DIAGNOSTICAR AS OCULTAS CAUSAS DA POBREZA SOCIAL ENDÉMICA,
SEGUNDO A BOA PRÁTICA DA MEDICINA POPULAR
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Com quantas lágrimas verte,
Com quanta dor te arrebanha,
Te aborda e depois se entranha,
Vem a miséria que, ao ver-te,
Te condena, te perverte,
Faz de ti farrapo humano,
Te lança no desengano,
Te desgraça, te desdenha,
Te transforma em coisa estranha
Pr`a melhor poder perder-te!
*
Vem, quando menos sonhavas,
Infiltrar-se, sorrateira,
Estudando a melhor maneira
De açambarcar quanto amavas,
De negar quanto aspiravas,
De minar-te a resistência
Quando, com estranha insistência,
Te obriga a ser`s quem não queres,
Desmentindo o que disseres
Pra tomar-te a dianteira…
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Muito poucos voltarão
A dar-te o valor que tens,
Que ela não rouba só bens,
Muda, inteira, a condição
E, além de tirar-te o pão,
Coloca-te uma etiqueta
Das que abundam na sarjeta
Dos humanos preconceitos
Onde alguns poucos “eleitos”
Encontram fama e razão…
*
Quanto mais dúbia, mais duro
Se torna o jugo que impôs
Sobre a voz da tua voz
Quando aperta, furo a furo,
O cinto com que o esconjuro
Te abraçou nesse momento
Em que, sem outro argumento,
Te afastou de quanto amaste
E logo, em claro contraste,
Te impõe seu próprio futuro
*
Pois assim que essa armadilha
Por elites preparada,
Tão fatal, tão bem estudada,
Que nem a própria partilha
Bloqueia os rumos que trilha,
Se estende tão triunfante
Como se fora gigante
De bocarra escancarada
Cravando, pela calada,
A dentuça acutilante
*
E, munida de mil manhas
Bem escondidinhas na manga,
Faz, de amigo, um seu “capanga”
Com duas ou três patranhas
De opacidades tão estranhas,
Que, nas malhas enrededado,
Já nem sabes pra que lado
Te empurra essa dura canga:
Se prá fome ou se prá tanga
De quem, de ti, faz “coitado”!
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Maria João Brito de Sousa
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15.11.2013
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