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Segunda-feira, 23 de Abril de 2018

ABRIL - O TAL VINTE E CINCO

O TAL VINTE E CINCO.jpeg

 

O TAL VINTE E CINCO



Aos vinte e cinco foi dia

Quando era de madrugada

E nesse dia a alegria,

Toda a alegria que havia,

Explodiu quando libertada.



Aos vinte e cinco chorou-se

Pelo motivo contrário

Ao que o estado novo trouxe;

Aos vinte e cinco cantou-se,

Sonhou-se um poder operário!



Tantos mil, fomos vontade,

Que num grito, um grito só,

Saudámos a liberdade,

Todos em pé de igualdade

E a pisar o mesmo pó,



O pó de todas as ruas

Metro a metro percorridas

Por chaimites, por charruas...

E sonhei, ou vi faluas

Trocar mar por avenidas?



Aos vinte e cinco, sonhámos,

Aos vinte e cinco sentimos

O sabor do que criámos

E desse dia guardámos

O que hoje não permitimos.



Depois? Depois aprendemos,

Porque, pouquinho a pouquinho,

Percebemos que o que temos

São sobras do que fazemos,

Mas mais ninguém está sozinho,



Por isso é que sempre urgente

Lutar mais, com mais afinco,

Lutar, tendo bem presente

Que sempre há quem rosne à gente

Que fez o tal vinte e cinco!



Maria João Brito de Sousa – 23.04.2018 – 09.46h

 


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Terça-feira, 3 de Abril de 2018

MEIO MANTO, O DE MARTINHO...

ARMINHO.jpg

 

MEIO MANTO, O DE MARTINHO

I

Nunca quebro os pés da quadra,

Quebro os pés com que caminho

Ao longo do que adivinho

Ser uma anónima estrada

Já velha e mal empedrada

Onde, passinho a passinho,

Por vezes sem pão, nem vinho,

Prossigo esta caminhada

Ora neutra, ora enfeitada

Por algo bem comezinho;



II

Se é Natal, por azevinho,

Mas, na Páscoa, amendoada,

Num bom folar cozinhada

Com mestria, com carinho,

Não fique outro irmão sozinho

Quando eu farta, alimentada

E pla vida agasalhada,

Guardo o manto de Martinho

Inteiro, muito inteirinho,

Sem sentir-me, eu, espoliada.



III

Não quebro a pedra à calçada,

Quebro a vida, ninho a ninho,

Se usar seda em vez de linho

E for de ouro a minha espada;

Não sei de espada dourada

Que não matasse um vizinho,

Que respeitasse um velhinho

Quando desembainhada...

Eu, que não trespasso nada,

Uso um meio, o de Martinho.



III

Deixo que o pequeno arminho

Crie em paz uma ninhada

E, caso trema gelada,

Engendro as tramas de um linho

Que teço devagarinho

Ao tear, bem concentrada...

A chama mais apagada

Há-de aquecer-me, é certinho!

Meio manto, o de Martinho,

Meio, o meu...estou-lhe irmanada!





Maria João Brito de Sousa – 03.04.2018 -15.15h





 


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Segunda-feira, 2 de Abril de 2018

PESCARIA(S)

PESCARIA.jpg

 

A PESCARIA



I

Lanço a fateixa. A jangada

Estremece e fica parada

No meu mar de beira rio...

À rede, já remendada,

Lanço-a à água... é tudo ou nada,

Que trago o bote vazio;

Venha atum, raia e safio,

Quando a malha for puxada

E outro mar de água salgada

Dela escorrer, fio a fio!



II

Mas se entre as malhas da rede

Não há peixes de verdade

E eu cometo a veleidade

De usá-los como quem cede

À distância que se mede

Entre invenção e verdade

Quando o poema me invade,

Que sede dessoutra sede

Que a minha sede precede,

Traz e leva, a quem nem pede,

Filhos do meu mar de jade?



III

Cordas que apenas invento

Tecem-me as malhas da vida

E a barca foi-me erigida

Num mar que eu mesma sustento...

Meus remos? Sopros de vento

À espera do que eu decida;

Se quero a fateixa erguida

Sobre um mar tão turbulento,

Ou se imóvel me contento

E lanço a rede em seguida.



IV

Pra que banquete, afinal,

Nos convida este poema

Se a autora finge que rema

No mar do seu próprio sal?

Em que jangada irreal

Singra as ondas do fonema?

Quem nos diz que vale a pena?

Quem jura não ser por mal

Que estende no areal

Uma ilusão pura e plena?

 

V

Parábola, alegoria,

Mas não mera brincadeira,

Pois não é coisa ligeira

Criar-se a malha vazia

Que, mais dia, menos dia,

Se há-de tornar verdadeira

Já que sempre achou maneira

De dar corpo à pescaria;

Mais pesca quem mais porfia

E, esta, porfia-se inteira!

 



Maria João Brito de Sousa – 02.04.2018 – 19.52h

 

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