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http://asmontanhasqueosratosvaoparindo.blogs.sapo.pt

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EIS AS MONTANHAS QUE OS RATOS VÃO PARINDO

por muito pequenos que pareçam ser... NOTA - ESTE BLOG JAMAIS SERVIRÁ CAFÉS! ACABO DE DESCOBRIR QUE OS DOWNLOADS SE PAGAM CAROS...

SOLIDÃO

27.09.17 | Maria João Brito de Sousa

Julio - Mulher recostada.jpeg

 (Décima)

 

 

Solidão de solitária

solidamente abrigada

na robustez estruturada

de uma raiz temerária,

quem te queira, a ti, contrária,

volátil, frágil, plasmada

na voz desarticulada

da confusão mercenária,

condena-te a ser falsária,

queima-te... em chama apagada!





Maria João Brito de Sousa



(Décima não datada, casualmente encontrada nos meus ficheiros Word)

 

Imagem - Desenho de Júlio

 

 

GLOSANDO UM MOTE DE RAYMUNDO SALLES

13.09.17 | Maria João Brito de Sousa

Chagall_Over_Village_1924a.jpg

 

Mote

 

Falar da trova a contento,

Tem se tentado de tudo,

Transcende o nosso talento

Sua beleza, contudo.

 

Raymundo Salles (Brasil)

 

Glosa

 

Se respondo, ou se o não faço,

Se me tento, ou me não tento,

Nunca o sei, nunca o lamento,

Nem tampouco me embaraço,

Pois há sempre este cansaço

Que me torna o verso lento,

Por muito que, havendo intento,

Se me evada o gesto lasso

E eu consiga, passo a passo,

“Falar da trova a contento”

 

Pode ser que sim... ou não,

Que em versejo, assim, “chorudo”,

Bem poucas vezes me iludo,

Nem, perdida em confusão,

Deixo de dar, à Razão,

Honras de ouro e de veludo

Quando alguém, num espanto mudo,

Vem pedir-me opinião

E afirma, numa aflição;

“Tem-se tentado de tudo”!

 

Sei que, por vezes, nos falta,

Na estrofe, o discernimento

Que conduz poeta atento

Ao que em poema se exalta

Se cada sílaba assalta,

De rompante, o sentimento,

Como a luz que ao firmamento,

Todo inteiro, sobressalta

E por estar no céu, tão alta,

“Transcende o nosso talento”!

 

Porém... tentemos, ainda,

Mudar um verso”bicudo”,

Noutro mais grave e sisudo

De que um leitor não prescinda

Em melodia tão linda

E que, a ele, o torne mudo,

Já rendido e, sobretudo,

Preso à luz, que nunca finda,

Dos mistérios que deslinda

“Sua beleza, contudo”...

 

 

 

Maria João Brito de Sousa – 09.02.2015 – 10.00h

 

Imagem - "Over the Village" - Chagall

 

POETANDO

07.09.17 | Maria João Brito de Sousa

digitalizar0036.jpg

 

Lembro que um patinador

Patina, não faz patins,

Nem outras coisas afins,

E que qualquer bom escritor



Escreva, ou não, regularmente,

Não escritura, escreve mesmo;

Ainda que o faça a esmo,

Escreverá concretamente,



Portanto, lá vai escrevendo,

Seja verso ou seja prosa

E mesmo que abrace a glosa,

Também escritor estará sendo,




Pese esta irregularidade

Com que o mesmo se confronta

Nessa acção, quando não conta

C`o verbo, em desigualdade...



Quem medica não “virou”

Fábrica ou laboratório!

De hospital ou consultório,

Para médico estudou



Farmacêutico, estudando,

Não quer farmácias erguer;

Muito tem para saber,

Mas não está farmaticando.



O bom produtor, produz,

Não produta, de certeza,

Tudo quanto chega à mesa

De um condutor... que conduz



Talvez algum camião

Que na estrada vá rodando,

Em vez de estar camionando...

Eis outra contradição!



Remador, não faz reminhos,

Faz dos remos profissão!

Remando exerce a função

De ir varando os seus caminhos...



Arquitecto faz projectos,

Mas não passa a projector

Por produzir tal labor

Nos seus diversos aspectos,



No entanto, é projectando

Que vai pela vida fora;

Projecta enquanto labora

No que vai arquitectando...





Por que deve um espectador

De um qualquer filme que passe,

Sentir-se tal qual espetasse,

Quando passa a espetador?



E o que impede um poeta

De ir por aí poetando

Os versos que for gerando

Se um poema é sempre a meta?



Poetando, não me assumo

Grávida de poetinhas,

Mas assumo serem minhas

Estas quadras. Meu, meu rumo!





Maria João Brito de Sousa – 07.09.2017 – 11.26h







 

SEM SAIR DO MEU LUGAR

05.09.17 | Maria João Brito de Sousa

Picasso - Femme Assise.jpg

 

Bebi de todas as fontes

Que por cá pude encontrar;

Andei por terra e por mar,

Escalei escarpas, subi montes

E fui rasgando horizontes

Sem sair do meu lugar.



Paradoxal, na postura,

Crio de dentro pr`a fora;

A mil milénios por hora

E nunca um pneu se me fura,

Nem desgasto a viatura,

Ou a multa me apavora,



Mas, pr`a dizer a verdade,

Vez por outra me ressinto

De estar neste labirinto

E vem roer-me a saudade

De andar sem dificuldade,

Sem destino e por instinto,



Em vez de estar dependente

Da boleia ocasional

Pr`ó GIP ou pr`ó hospital

E incomodar tanta gente

Por ter ficado impotente

Pr`á locomoção normal...



Quaisquer cinquenta passinhos

São, pr`a mim, uma odisseia

Pois logo a dor me golpeia;

Passo a passo, ando uns metrinhos

Sobre estes pés tolhidinhos

Pela força que escasseia...





Maria João Brito de Sousa – 05.09.2017 – 11.22h



(… a brincar, a brincar... mas retratando fielmente a minha realidade)

 

IMAGEM - "Femme Assise" - Pablo Picasso

O PRIMEIRO ESPINHO

04.09.17 | Maria João Brito de Sousa

 

 

digitalizar0040.jpg

 

I

 

O menino não dormia,

Gemia muito baixinho

Esperando, no seu escaninho,

Que rompesse um novo dia.

 

Teimosa, a chuva caía

Num compasso miudinho;

Era a hora do soninho,

Mas nenhum sono surgia

 

E a noite era uma agonia

Roendo, devagarinho,

Esse menino sozinho

 

Que eu nunca mais esqueceria

De ter visto, em noite fria,

Fazer de um canteiro um ninho...

 

II

 

Num impulso de carinho

Que eu, menina, lhe devia,

Perguntei-lhe se podia

Sentar-me no seu cantinho,

 

Conversar um bocadinho,

Perguntar porque gemia

E até dar-lhe uma fatia

Do meu pão. Tão poucochinho!

 

Mas, assim, pelo caminho,

Nada mais encontraria...

(para mim mesma dizia)

 

Dei-lhe o pão todo inteirinho

E afastei-me de mansinho

Sem sequer ver que o comia,

 

III

 

Que, de súbito, sorria

Apesar do frio. Que linho

Lhe cobriria o corpinho?

Que chama o aqueceria?

 

 

Caminhando, reflectia

Sobre a vida e o pobrezinho

Tão pequeno, tão magrinho...

Da reflexão me nascia

 

Algo que hoje me arrepia,

Algo amargo, algo daninho

Sobre “sorte” e descaminho;

 

O que era que em mim crescia

E de amargura me enchia?

Era o meu primeiro espinho.

 

 

 

Maria João Brito de Sousa – 03.09.2017 – 19.17h

 

(Reservados os direitos de autor)

 

CINCO QUEDAS POR MINUTO...

03.09.17 | Maria João Brito de Sousa

cinco quedas por minuto.jpg

 

 

 

(Décimas)

 

 

Quando a ligação nos cai

Cinco vezes por minuto,

Nem sequer o mais astuto

Deduz aonde ela vai

E até a Razão nos trai,

Escondida nalgum reduto

Como o verde, verde fruto

Que ainda mal sobressai...

Tudo, enfim, se nos subtrai,

Seja qual for o produto,



Mas se nada lhe comuto,

Eis que a “queda” se retrai

E, sem dizer um só “ai”,

Esquece o poder absoluto,

Abdica desse usufruto,

Vai para longe - “bye bye”! -

E eu lá escrevo o que me sai

Destas mãos com qu `inda luto;

Verso franco e resoluto,

Não cede, nem se distrai!





Maria João Brito de Sousa – 03.09.2017 – 17.02h

 

(Reservados os direitos de autor)

 

 

POR TER SEDE, FUI À FONTE

02.09.17 | Maria João Brito de Sousa

Por ter sede, fui á fonte.jpg

Quis matar a minha sede,

Mas secara o fontanário

E a sede, pelo contrário,

Cresce mais, já nem se mede,

Ninguém, nem nada a impede

De ir-se tornando um fadário...

 

Tenho sede quanto baste

Para encher o mundo inteiro

De outra que nos vem primeiro,

De uma que não tem desgaste,

Mesmo que a água me arraste

Como às algas, num ribeiro.

 

Não a mato; mata-me ela,

Pois sem água ninguém vive

E a sede que tenho e tive

Não se vai, nem se protela,

Com esta gotinha dela;

Tenho sede de ser livre!

 

 

Maria João Brito de Sousa – 02.09.2017 – 22.18h

 

(Reservados os direitos de autor)