.EIS AS MONTANHAS QUE OS RATOS VÃO PARINDO

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Terça-feira, 5 de Setembro de 2017

SEM SAIR DO MEU LUGAR

Picasso - Femme Assise.jpg

 

Bebi de todas as fontes

Que por cá pude encontrar;

Andei por terra e por mar,

Escalei escarpas, subi montes

E fui rasgando horizontes

Sem sair do meu lugar.



Paradoxal, na postura,

Crio de dentro pr`a fora;

A mil milénios por hora

E nunca um pneu se me fura,

Nem desgasto a viatura,

Ou a multa me apavora,



Mas, pr`a dizer a verdade,

Vez por outra me ressinto

De estar neste labirinto

E vem roer-me a saudade

De andar sem dificuldade,

Sem destino e por instinto,



Em vez de estar dependente

Da boleia ocasional

Pr`ó GIP ou pr`ó hospital

E incomodar tanta gente

Por ter ficado impotente

Pr`á locomoção normal...



Quaisquer cinquenta passinhos

São, pr`a mim, uma odisseia

Pois logo a dor me golpeia;

Passo a passo, ando uns metrinhos

Sobre estes pés tolhidinhos

Pela força que escasseia...





Maria João Brito de Sousa – 05.09.2017 – 11.22h



(… a brincar, a brincar... mas retratando fielmente a minha realidade)

 

IMAGEM - "Femme Assise" - Pablo Picasso


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Sábado, 2 de Setembro de 2017

POR TER SEDE, FUI À FONTE

Por ter sede, fui á fonte.jpg

Quis matar a minha sede,

Mas secara o fontanário

E a sede, pelo contrário,

Cresce mais, já nem se mede,

Ninguém, nem nada a impede

De ir-se tornando um fadário...

 

Tenho sede quanto baste

Para encher o mundo inteiro

De outra que nos vem primeiro,

De uma que não tem desgaste,

Mesmo que a água me arraste

Como às algas, num ribeiro.

 

Não a mato; mata-me ela,

Pois sem água ninguém vive

E a sede que tenho e tive

Não se vai, nem se protela,

Com esta gotinha dela;

Tenho sede de ser livre!

 

 

Maria João Brito de Sousa – 02.09.2017 – 22.18h

 

(Reservados os direitos de autor)

 


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Segunda-feira, 7 de Agosto de 2017

DEAMBULANDO

MERGULHÃO AUSTRALIANO.jpg

 

Quando ando a deambular

Pelos corredor`s da vida,

Fico por vezes perdida,

Mas acabo por voltar

À velha “porta de entrar”

Que também serve a saída...



Deambulando em sextilhas

De redondilha maior,

Irei por aonde for,

Percorrerei muitas milhas

De continentes ou de ilhas,

Dessas que já sei de cor



E se, acaso, acontecer

Não me recordar de alguma,

Volto ao mar, pergunto à espuma;

-“Como me pude perder?”

A espuma há-de responder

Que deixe passar a bruma,



Que olhe o Sol, que oiça as estrelas,

Que siga as indicações

Do grito dos mergulhões

Que conseguem entendê-las

E que nunca vá perdê-las

Noutras deambulações...



Ouvirei atentamente

E, depois de traduzido

Cada som que seja ouvido,

Será dia e, num repente,

Poderei ver claramente

O meu rumo, antes perdido.





Maria João Brito de Sousa – 07.08.2017 – 10.16h







 


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Terça-feira, 25 de Outubro de 2016

GLOSANDO UM POEMA EM SEXTILHAS DA AUTORIA DE ALICE MENDES

Dona Morte 2.jpg

 

QUANDO EU MORRER...

de
Alice Mendes

 

 

Se eu pudesse escolher
Um dia para morrer
Queria-o solarengo
Assim como uma aguarela
Arco-íris em janela
De outra forma, não entendo.

Quando esse dia chegar,
Sei que não vou cá ficar
Quero ir bem esticadinha…
Bastam as rugas da vida
Quanto mais inda esta lida
De não ir bem bonitinha.

Para mim, chega uma flor
Que me acompanhe onde for
E perfume o meu caminho…
Sei que não vou andando
Ganhei asas, vou voando
Como um lindo passarinho.

Depois, lá onde eu estiver,
A minh’alma de mulher
Continuará a sorrir.
Irá olhar para o mundo
E num cantinho bem fundo
Verá outros a partir.

É sina que a todos cabe
Mas, o qu’inda ninguém sabe
É o que depois se passa…
Com os pés juntos iremos
Aqui, jamais os movemos
E lá? Será que tem graça?

 

Alice Mendes

25.10.2016

 

 

HISTÓRIAS DAS MIL E UMA NOITES


(Para "entreter" um pouco a dona Morte.)

"Se eu pudesse escolher,"
Quereria não morrer
Dentro dos próximos anos,
Porém, o que há de mais certo
É, vendo a morte por perto,
"Levá-la à certa", entre enganos...

 

Quando esse dia chegar,
Não mais podendo enganar
A velha da foice negra,
Que remédio posso ter,
Se não fazê-la entender
Que quero fugir à regra?

 

"Para mim, chega uma flor",
Mas ela sabe de cor
Estes "truques" dos mortais,
Vai fazer-me ouvidos moucos
E eu, que vou morrendo aos poucos,

Já gastei truques demais...

 

"Depois, lá onde eu estiver",
Faz de mim quanto quiser...
No que toca aos meus poemas,
Não lhes vá tocar, porém!

Mate, se isso lhe convém,

Não me arranje é mais problemas!

 

"É sina que a todos cabe";
Não há quem nunca se acabe
Nesta existência pautada
Por tristezas, alegrias,
Convicções e nostalgias
E uma ou outra gargalhada...

 

 

Maria João Brito de Sousa - 25.10.2016 - 14.25h


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Quinta-feira, 1 de Setembro de 2016

VIAGEM...

ICARO.jpg

Não sei em que dia, ou noite,

cheguei ao topo do mundo...

Dormira o sono profundo

de quem fora del`se acoite

e, quando acordo, este açoite

dum espanto mais que fecundo!

 

Roída a dor - ou surpresa? -

da coisa por conhecer,

rói-me a mim, quase a doer,

esta (in)grata, mas coesa,

sensação de, estando presa,

poder voar, se o quiser...

 

E vôo, mantendo os pés

bem firmes neste meu espaço...

Vejo, pedaço a pedaço,

o mundo, de lés a lés!

Viajo dentro de mim,

mas, sempre que vôo assim,

tenho a força das marés...

 

Lá do fundo, um chão qualquer

que nunca dantes olhara,

não vendo a dor que me vara,

vem compelir-me a descer...

Não tendo nada a perder,

recuso... viro-lhe a cara!

 

 

Maria João Brito de Sousa - 01.09.2016 - 18.21h

 

 

 


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Domingo, 19 de Outubro de 2014

A RECONQUISTA...

1891383_27Knl.jpeg

Meu gato, velho decano,

Que havia já quase um ano

Me não subia pr`á cama

(peco por excesso, mas  rima!),

Hoje,saltou-lhe pr`a cima

Sem, sequer, vestir pijama!

 

De manhã, muito cedinho,

Entendeu rondar-me o ninho;

Olhou, mediu e, de um salto,

Veio aninhar-se a meu lado,

Junto ao meu corpo deitado

Que, do chão, vira mais alto...

 

A pequena “usurpadora”

Também subiu, sem demora,

E olhou-o contrariada,

Com a cauda num vai-vem...

O velho macho, porém,

Não se importou mesmo nada,

 

Manteve  imponente calma...

Gato decano tem alma

Enquanto orgulho lhe resta!

Daqui não saio, nem morto

E, se isto “der para o torto”,

É porque a "dama" não presta!”

 

Retomada a antiga “posse”,

De um simbolismo tão doce

Quanto difícil de ousar,

Está “deposta” uma invasora

E o meu “patriarca”, agora,

Não mais cede o seu lugar!

 

 

Maria João Brito de Sousa – 19.10.2014- 12.09h  ;)

 


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Sábado, 4 de Maio de 2013

SEM GRANDES FILOSOFIAS...

 

Sextilhas em redondilha maior

 

 

 

 

SEM GRANDES FILOSOFIAS…

 

 

Foi na vivência dos dias,

Sem grandes filosofias

Nem sombra de frustrações

Que deixei pr`a trás os medos

E desdenhei dos segredos,

Intrigas, contradições,

 

Pois, persistente e madura,

Impus, à minha procura,

Rumos de anseio e canseiras,

Diferentes de quanta gente

Os busca sofregamente

Sem vislumbrar-lhes fronteiras…

 

Já no respaldo dos anos,

Se a mim causei alguns danos,

A ninguém prejudiquei

Pois, dê lá por onde der,

Farta de tanto saber,

Sei que muito pouco sei,

 

Mas que essa sabedoria

Brota da rima tardia

De uns “porquês” mal perguntados

Pela espera que não cansa

Da voz altiva, mas mansa,

De alguém desfeito em bocados

 

Pelas mãos de um mero acaso

Que nasceu fora de prazo,

Mas tornou determinante

A escolha, muito precoce,

Do sentido - amargo ou doce! -

Que aponte um céu mais distante…

 

 

 

Maria João Brito de Sousa – 01.04.2013 – 18.44h

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Sexta-feira, 21 de Dezembro de 2012

SEXTILHAS A UM FIM DO MUNDO NO DESEMPREGO

 

(Poema satírico)

 

O Fim do Mundo, à cautela,

Pr`a não melindrar ninguém,

Pressentindo alguns sinais,

Munido duma tabela,

Foi informar-se, em Belém,

De outras tragédias rivais…

 

Entrou mudo e foi calado

Que acabou por desistir

De auscultar este governo…

Estava o país tão estragado

Que deu consigo a sorrir

Já comovido e fraterno…

 

Fez uma constatação

Perante a visita de estado

Que tanto o amoleceu,

Pois mostrou ter coração

- apesar de bem guardado… -

E foi isto o que entendeu;

 

“Com “sábios” deste calibre,

Na condução do país,

Mais me vale nada fazer!

Há lá quem os equilibre

Se cortam, pela raiz,

Quanto os faria crescer?

 

Se ao próprio povo retiram

O trabalho, a dignidade,

A segurança, o abrigo

E só em cifrões se miram,

Nem terão sagacidade

Para entender outro perigo!

 

Passo a ser um Fim do Mundo

Sem nada para fazer,

Muito jovem pr`á reforma,

Sem o conforto de um “fundo”

E, sem côdea que comer…

Tornei-me parte da norma!”

 

 

 

Maria João Brito de Sousa – 21.12.2012 – 17.24h

 

 

 

Imagem retirada da net, via Google

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Quinta-feira, 13 de Janeiro de 2011

MOMENTOS E ETERNIDADES

 

Sob um céu cheio de estrelas,

O mais certo é que quem passa

Pelas ruas da cidade,

Se ponha a olhar pr`a elas

E, ao olhar, encontre a graça

De entender outra verdade...

 

São pontinhos coloridos

Salpicando o negro manto

De uma luz que mais parece

Nascer dos cinco sentidos

Pr´a nos mostrar novo encanto

Sempre que um dia anoitece...

 

Quantas vezes não partiram

As mil estrelas que então vemos

A luzir no firmamento?

Os olhos, porém, sentiram

Que através deles as fazemos

Eternas... por um momento...

 

 

 

 

 

Maria João Brito de Sousa

 

 

Imagem retirada da internet

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Segunda-feira, 9 de Agosto de 2010

POUCA-TERRA, POUCA-TERRA...

 

“Pouca-terra, pouca-terra”…

Tanta terra falta ainda,

Tanto rio por navegar,

Tanto cume de alta serra,

Tanto trilho que não finda,

Tanta estrada e tanto mar!


 

E, do comboio que passa,

“Pouca-terra, muita-pressa”,

Na melopeia de infância,

Não consinto uma ameaça;

Tento ver que terra é essa,

Quero medir-lhe a distância!


 

“Pouca-terra” – mais que fosse! –

Quanta insondável lonjura

Vai no triste olhar que fica…

Tanta curva amarga ou doce

Na transitória procura

A que o mundo se dedica…


 

“Pouca-terra”… e, afinal,

Tanto, ainda por cumprir

Nas distâncias que prevejo…

Pouca terra? Não faz mal,

Muito mais terra há-de vir!

[pouca terra e... tanto Tejo!]

 

 


 

 

Maria João Brito de Sousa – 08.08.2010 – 15.35h


 

Aos comboios da “Linha do Estoril”, sempre presentes, desde os primórdios da minha infância.

 

Revisto e ligeiramente reformulado a 24.11.2013

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