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Quarta-feira, 13 de Setembro de 2017

GLOSANDO UM MOTE DE RAYMUNDO SALLES

Chagall_Over_Village_1924a.jpg

 

Mote

 

Falar da trova a contento,

Tem se tentado de tudo,

Transcende o nosso talento

Sua beleza, contudo.

 

Raymundo Salles (Brasil)

 

Glosa

 

Se respondo, ou se o não faço,

Se me tento, ou me não tento,

Nunca o sei, nunca o lamento,

Nem tampouco me embaraço,

Pois há sempre este cansaço

Que me torna o verso lento,

Por muito que, havendo intento,

Se me evada o gesto lasso

E eu consiga, passo a passo,

“Falar da trova a contento”

 

Pode ser que sim... ou não,

Que em versejo, assim, “chorudo”,

Bem poucas vezes me iludo,

Nem, perdida em confusão,

Deixo de dar, à Razão,

Honras de ouro e de veludo

Quando alguém, num espanto mudo,

Vem pedir-me opinião

E afirma, numa aflição;

“Tem-se tentado de tudo”!

 

Sei que, por vezes, nos falta,

Na estrofe, o discernimento

Que conduz poeta atento

Ao que em poema se exalta

Se cada sílaba assalta,

De rompante, o sentimento,

Como a luz que ao firmamento,

Todo inteiro, sobressalta

E por estar no céu, tão alta,

“Transcende o nosso talento”!

 

Porém... tentemos, ainda,

Mudar um verso”bicudo”,

Noutro mais grave e sisudo

De que um leitor não prescinda

Em melodia tão linda

E que, a ele, o torne mudo,

Já rendido e, sobretudo,

Preso à luz, que nunca finda,

Dos mistérios que deslinda

“Sua beleza, contudo”...

 

 

 

Maria João Brito de Sousa – 09.02.2015 – 10.00h

 

Imagem - "Over the Village" - Chagall

 


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Segunda-feira, 5 de Dezembro de 2016

DE JUBA NEGRA A ESFREGONA

Esfregona.jpg

 

 

Nem espanador, nem vassoura...

Mais me parece um esfregão

Desses de limpar o chão,

O meu, que não viu tesoura

E há vários anos me agoura

Uma estranha antevisão;

Crescer tanto que a razão

Se me perca, porque estoura...

(atenção! Nunca fui loura,

antes foi côr-de-carvão,

negrinha como um tição,

a minha juba de moura...)

 

Agora, sal e pimenta,

Mas muito mais do primeiro,

Que o tempo é bom salineiro

E eu entrei pelos sessenta,

Há já quatro... macilenta,

Mas sem tempo, nem dinheiro

Para investir num tinteiro,

Desses em que a tinta assenta

Sobre esta ´massa cinzenta`

Que é o meu cabelo inteiro.

 

Quis "responder-lhe" em soneto,

Mas só assim foi nascendo

E em décimas crescendo

Como este cabelo preto,

Despenteado, obsoleto

Que aqui lhe fui descrevendo

E que já branco vai sendo

Porque um tempo bem concreto

Lhe deu conta do aspecto,

A "resposta" que eu pretendo...

 

 

Maria João Brito de Sousa- 05.12.2016 - 15.19h

 

 

 

(Na sequência do soneto "DE ESPANADOR A TIGELA" de Maria da Encarnação Alexandre)

 

 

 

 

 



 

 

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Terça-feira, 18 de Outubro de 2016

GLOSANDO A POETISA ALICE MENDES

coração.jpg

LEILÃO

 

 

Está à venda um coração                                           

Já no próximo leilão                                   

P'ra quem o quiser comprar.                        

Ainda está em bom estado,                         

Nunca ele esteve parado,                             

Motor... Sempre a trabalhar.                       

                                                                    

Tem a cor avermelhada

Cor de sangue acentuada                     

Em momentos de paixão.                              

Batimentos desiguais,                                    

Estremecem por demais                               

Para alterar a tensão. 

 

Tem quatro partes distintas

Já não é de meias tintas

Está treinado no amor…

Tem uma capa de ternura

Sabe sorrir com doçura

Chora com saudade e dor…

 

Está à venda por bom preço,

Só não se vira do avesso

Isso não faz… Jamais!

Ora calmo ora agitado,

Espera que seja do agrado,

Dos senhores… QUEM DÁ MAIS!?

 

 

 Alice Mendes

 

15.10.2016

 

 

 

 REMATE

 

 

"Está à venda um coração"?

Eu não te digo que não,

Mas só to peço emprestado

Pois, comprar, compro a cabeça

Pr`a sondar, peça por peça,

As razões deste legado...

 

"Tem a cor avermelhada",

Que é a mais adequada

Ao bom músculo estriado

Que nos serve o corpo inteiro,

Mas... se eu não tiver dinheiro,

Não to compro, nem estragado...

 

"Tem quatro partes distintas",

Condiciona quanto sintas

E bombeia sem cessar

O sangue que te dá vida;

Sem coração, estás perdida,

Ninguém te pode salvar...

 

"Está à venda por bom preço",

Dizes, logo no começo,

Deste teu estranho leilão,

Não sabendo - ou por sabê-lo... -

Qu`esse órgão, sendo singelo,

Cumpre uma vital função...

 

Maria João Brito de Sousa - 18.10.2016 - 09.35h


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Sábado, 24 de Setembro de 2016

GLOSANDO A POETISA MARIA DA ENCARNAÇÃO ALEXANDRE VI

Progressos.jpg



FLOR SILVESTRE

 

Sou filha dos verdes campos

Neta talvez dos pinhais

Cresci vendo pirilampos

Rodeada de animais

 

Sou flor arisca e silvestre

No meio de ervas nascida

Rebento verde e campestre

Na cidade ando perdida

 

Andei descalça na rua

Comi uvas sem lavar

Empurrei uma charrua

Na hora de cultivar

 

Protegida plos sobreiros

Dormi sestas de Verão

Embalada plos chilreios

E a folhagem por colchão

 

Quando urtigada, dei ais

Comi azedas, murtinhos

Corri entre milheirais

Subi árvores, vi ninhos

 

Nas silvas do meu valado

Comi as amoras pretas

Sentei no chão com agrado

Mirei lindas borboletas

 

Fiz do gato travesseiro

Nas horas de descansar

E do cão meu companheiro

Em tempo de passear

 

Na confusão da cidade

Sente falta a flor silvestre

Daquele ar de liberdade

Nesse espaço tão campestre

 

Maria da Encarnação Alexandre

28/01/2016 



"PROGRESSO(S)"



"Sou filha dos verdes campos"

Mas fui, fora de contexto,

Ficando presa com grampos,

Já não sei por que pretexto...



"Sou flor arisca e silvestre"

Transformada em rocha dura

Pelo sopro louco, agreste,

De uma vontade imatura...



"Andei descalça na rua"

Depois de amadurecer,

Uivando às fases da Lua,

Sem da Terra me esquecer...



"Protegida plos sobreiros",

Inventei-me, eu, protectora

Da glória de uns abrunheiros

De que fui dona e senhora...

 

 

"Quando urtigada, dei ais",

Mas não quis voltar atrás;

Desafiei, pedi mais,

Mostrei do que era capaz!

 

"Nas silvas do meu valado"

Deixei preso o meu vestido...

Deixei-o por lá, rasgado,

Deixei-o ficar, esquecido...

 

"Fiz do gato travesseiro"

Sempre tentando entender

Como é que um simples rafeiro

É sábio, sem o saber...

 

"Na confusão da cidade"

Sempre avanço, mas confesso

Ter certa dificuldade

Em chamá-la de "progresso"...

 

 

Maria João Brito de Sousa - 24.09.2016 - 13.15h

 

 


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