.EIS AS MONTANHAS QUE OS RATOS VÃO PARINDO

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Terça-feira, 22 de Agosto de 2017

PERPETUUM MOBILE

Perpetuum Modile - Da Vinci.jpeg

 

Alguns de nós, vamos indo,

Outros... de mal a pior

Levamos somente a dor

De ver os demais partindo

Logo que o seu ciclo é findo...

-Passaram o Bojador!

Vão dizendo alguns, de cor,

Sabendo que estão mentido...

Mas vai-se a dor diluindo

No pujante Adamastor



E a vida, que continua,

Que nunca pára um momento,

Nem se junta ao sofrimento,

Prossegue impávida e crua,

Vela ao vento, é já falua,

Falua de vela ao vento

Contra alegria ou tormento,

Nunca chora, nem recua;

Vista Sol, ou vista Lua,

É perpétuo movimento!





Maria João Brito de Sousa – 22.08.2017 – 13.14h

 


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Quinta-feira, 10 de Agosto de 2017

SEM PALAVRAS

PAVIA.jpg

 

Colhi todas as palavras,

Sem palavras fui ficando,

Mas outras foram brotando

Sempre livres, nunca escravas,

Ora mansas, ora bravas,

Da leira em que as fui plantando.



É delas que me alimento,

Só por elas vivo ainda;

Nunca a sementeira finda,

Nem se nega a ser sustento,

Pois dá fruto suculento

Semente que foi bem-vinda



E da leira improvisada

Que o meu corpo se tornou,

Brota o que me saciou

Da fome de não ter nada...

Por agora saciada,

Hoje, a colheita parou.





Maria João Brito de Sousa – 09.08.2017 – 11.57h

 


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Sexta-feira, 4 de Agosto de 2017

O MEU NOME

digitalizar0008.jpg

 



Sou João. Se vês Maria

Precedendo o meu João,

Não tem esse outra razão

Senão... a burocracia

Que nunca permitiria

A meu pai, homem bem são,

Que quebrasse a tradição

Que para os sexos havia...

Hoje, tudo a contraria

Mesmo quando o faz em vão...



Bazilio, vem-me da mãe

E surge, agora, com “z”

Sem que eu perceba porquê,

Nem que graça é que isso tem

Pois com “s” se mantém

Sempre que o possa escrever;

Dizem que logo ao nascer

Ficou escrito... e estava bem,

Por isso o “z” me convém...

Mas isso depois se vê!



Vem-me o Brito de meu pai;

Trouxe a pintura consigo

E é, por isso, um nome amigo,

Um nome que se não trai,

Que nunca oscila, nem cai,

Como é próprio de um abrigo,

Muito qu`rido, muito antigo...

Deixai-o ficar, deixai,

Porque é firme e não se esvai,

Nem foge ao primeiro p`rigo.



O “de” surge a harmonizar,

Nunca serviu pr`a mais nada,

Mas... a coisa harmonizada

É bem melhor de se olhar!

Del` não consinto abdicar,

Nem que me sinta obrigada

A assinar-me abreviada;

Esse “de” tem de constar!

Sou mulher pr`a me zangar,

Se por isso for “gozada”...



Sousa... quem sou eu sem Sousa?

Uma poeta qualquer?

Uma tonta? Uma mulher

Que ousa demais só porque ousa

Pôr, no papel ou na lousa,

O João... se lhe aprouver?

O Sousa deu-me o saber

E a paz em que hoje repousa...

Deu-me tanto e tanta cousa*

Que as nem posso descrever!



Maria João Brito de Sousa – 04.08.2017 – 13.06h

 

 

* António de Sousa, o meu avô poeta, nasceu no Porto, na Calçada das Virtudes.

 

À Helena Teresa Ruas A. S. Reis que me inspirou estas décimas.

 


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Sexta-feira, 17 de Fevereiro de 2017

SECAR-TE O PRANTO - Décimas

secar o pranto III.jpg

I

 

Pudesse eu secar-te o pranto

Sem precisar de mentir-te

E, sem te amar, redimir-te

Desse amargo desencanto

Dizendo que te amo enquanto

Tudo o que posso é vestir-te,

Aconchegar-te e cobrir-te

Com metade do meu manto

Que é de amizade, porquanto

Só esse amor sei exprimir-te...

 

II

 

É outro, o amor que te trai,

Bem o sei, bem mo disseste,

Mas eu que só tenho deste

Em que o tempo se me esvai,

Já provei do que subtrai,

Apaixonado e agreste,

Do de aparência celeste,

Do que se eleva... e que cai,

Sem te avisar que "água vai",

Do próprio altar que lhe ergueste.

 

 

 

Maria João Brito de Sousa - 17.02.2017 - 09.59h

 

 


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Sábado, 22 de Outubro de 2016

IMPROVISOS

Eu remo, meu capitão!.jpg

 

“- Eu remo, meu capitão,

Mas, cá por dentro, o meu medo

Vai-me soprando, em segredo,

Rumores de conspiração

Que dizem que remo em vão,

Que, mesmo em frente, um rochedo

Nos abalroa tão cedo,

Quão tarde eu diga que não...

Forças do braço e da mão,

Não nos salvam... reze um credo!”

 

“ -  Segue em frente, ó remador

Que agoiras tal desventura!

Não cabe à glória futura

Ter espaço pr`a espanto e dor!

Eu, que sou teu superior,

Quero é cega compostura,

Remada firme e segura,

Coragem, esforço e suor!

Esquece os presságios, que horror!

Obedece,  ó criatura!”

 

Três ondas não são galgadas,

Eis que um rochedo letal

Vem pôr o ponto final

Nas controvérsias lançadas,

Porque, pr`ás ondas, são nadas;

Medo ou glória... é tudo igual...

Montanhas de água com sal,

Não são partes int`ressadas

Das causas  reivindicadas

Por carne humana e mortal...

 

Porém, naquilo que eu escrevo,

Cada enredo é todo meu

E eu juro que não morreu

O que remava, a quem devo

A mesma história em que o levo

Ao ponto onde ele recolheu,

Duma barrica e de um pneu,

Qualquer coisa a que me atrevo

Chamar, com estúpido enlevo,

Jangada... e vinda do céu!

 

Enredos efabulados,

Vindos de onde eu decidir,

Mesmo absurdos, podem vir!

Há sempre uns versos guardados

Nos tempos mais inspirados

E, enquanto a rima fluir,

Nunca os nego a quem pedir...

Aqui vos ficam lançados

Num final, dos  mais“forçados”,

Com“metro”  pronto a escandir...

 

 

Maria João Brito de Sousa – 18.01.2015 – 18.58h


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Quarta-feira, 28 de Setembro de 2016

APOGEU POÉTICO AVL (1º Lugar)

solidao criativa.jpg

 

Patrono: Manuel Maria Barbosa du Bocage
Académica: Maria João Brito de Sousa
Cadeira: 06.
Apogeu Poético - Clássico - 03

 

SOLIDÃO*

 

Nenhum rei será mais rico,
nem nenhum "senhor do mundo"
foi mais alto, ou foi mais fundo
do que eu vou, quando em mim fico
se, com sorte, gratifico
um leitor que, eu sei, confundo,
nas rimas com que o inundo,
nos excessos que critico,
ou se, em excesso, frutifico
nalgum verso mais fecundo...

 

Está na minha natureza,
tanta e tão estranha Paixão
e é na mesma condição
- porquanto a ela estou presa... -,
que, sozinha, como à mesa
e procedo à digestão
do que Mente e Coração
vão sorvendo, sem surpresa;
polpa e sumo, na riqueza
desta infinda (Re)feição

 

Que mata a "fome de cão"
que cresce e que rói por dentro...
Porém, dela é que eu sustento
Verdade e Contradição,
por ser, minha Solidão,
meu maior contentamento,
meu sempiterno Alimento,
fornalha onde eu cozo o Pão
e onde a luz da Criação
beija a Mão com que a exp`rimento...

 

 

Maria João Brito de Sousa - 04.09.2016 - 15.21h

 

 

NOTA* - Refiro-me à Solidão Criativa, esse tempo de interioridade que é essencial a todo o poeta, não ao abandono.

 

Imagem retirada do Google


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Segunda-feira, 26 de Setembro de 2016

A PRIMEIRA VIAGEM DO POETA

pes.jpg

I



Percorreu o mundo inteiro

quando esse mundo era, ainda,

uma selva agreste, infinda...

Caiu em muito atoleiro,

perdeu pé quando o ribeiro

que atravessava, na vinda,

de uma terra amena e linda,

num repente traiçoeiro

transbordou do seu carreiro,

teve a vida na berlinda,



II



Resistiu, sobreviveu

a mil coisas que eu nem sonho,

provou do que é mais medonho,

mas nem assim se rendeu...

Não houve terra, nem céu,

que não beijasse, risonho,

ou, vez por outra, tristonho,

não suspirasse, qual réu

de um tribunal* muito seu,

onde agora o pressuponho,



III



Pois cabe-me a mim, poeta,

fazer, desta narrativa,

uma história presuntiva,

mas possível e completa,

verosímil e concreta

para que o poeta a viva

e, numa Barca cativa,

se faça à rota secreta

que foi sua predilecta,

porquanto imaginativa...



IV



Aqui dou por terminada

esta primeira Odisseia

de um Poeta que se estreia

e que, sendo acidentada,

bem sei ser dura e ousada,

mas não bonita, nem feia;

Nunca ninguém a refreia,

mesmo quando ameaçada,

punida ou chantageada

por quem, de fora, a falseia...





Maria João Brito de Sousa - 24.09.2016 - 19.28h



*alusão à consciência

 

 


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Sábado, 10 de Setembro de 2016

NA SEQUÊNCIA DE UM DESAFIO LANÇADO NO "HORIZONTES DA POESIA"

Verão.jpg

VERÃO

 

O verão, estação mais quente,
Despediu a primavera.
Já se estava dele à espera
Eis que surge, sorridente!
Ninguém fica indiferente
Aos campos, praias e mar
Com espaços a abarrotar,
De carros e de pessoas!
O verão de coisas boas
Que o outono há de levar...

 

Joaquim Sustelo

 

Décimas Glosadas

 

 

I

 

Calor? Não me mete medo,

Nem me faz ficar doente

Como o frio, que, de repente,

Desde manhãzinha cedo

Me enregela - que degredo... -

Inda além do Sol poente!

Prefiro este Sol ardente,

Disso não farei segredo

Se invoco - porque antecedo... -

"O Verão, estação mais quente"!

 

 

II

 

Menos dor, mais liberdade,

Menos roupa, mais quimera...

Ai, afinal, quem me dera

Que, tal qual minha vontade,

Eu, com mais mobilidade,

Corresse que nem pantera

Quando um pé por outro espera

Uma quase eternidade...

O Verão, porém, na verdade;

"Despediu a Primavera"

 

 

III

 

Veio estrear-se em beleza

Sob um sol que é rubra esfera

E todo em brilhos se esmera

Neste céu côr de turquesa,

Tal qual chama muito acesa

Que, num crescendo, pondera

Gerar seca bem severa,

Tal a sua natureza...

Mas não digam que é surpresa;

"Já se estava dele à espera"

 

 

IV

 

Não parece, por enquanto,

Mas quem seja previdente

Sabe que um Verão muito quente

Pode perder seu encanto

E acender-se em chamas, tanto,

Que uma floresta inocente

Arda e fique incandescente

Perdendo o seu verde manto

Neste V`rão que, no entanto,

"Eis que surge sorridente!"

 

 

V

 

 

Sempre que arda uma floresta,

Perde toda, toda a gente...

Numa vila, mesmo em frente,

- lugar de gente modesta... -

Há sempre alguém que se apresta

A apagar a chama ardente

Pois, tanta vez impotente

Face a essa imensa "besta",

Vendo o próprio inferno em festa,

"Ninguém fica indiferente",

 

 

VI

 

Por outro lado, consola

Ver o V`rão a despontar,

Com crianças a brincar

- porque já não têm escola...-,

Umas a jogar à bola,

Outras na praia a nadar

Sem terem de carregar

A "sempiterna" sacola

Pois não vai tinta, nem cola,

"Aos campos, praias e mar"...

 

VII

 

Faz-se a festa no campismo,

Pois sempre há-de haver lugar

Pr`a se poder acampar

- outra forma de turismo,

bem contrária ao comodismo

de nalgum hotel ficar... -

Numa mata, ou junto ao mar,

Conforme o dite o lirismo

Contra o duro fatalismo

"De espaços a abarrotar"...

 

 

VIII

 

 

Pois há quem nunca desista,

Nem pare de tecer loas,

Não a barcos e canoas,

Mas ao "espírito campista"

E ao campismo vanguardista

Que - juram! - são coisas boas,

Mas que - sei que me perdoas

Pois não sou malabarista... -

Mais parece imensa pista

"De carros e de pessoas!"

 

 

IX

 

Na minha casa - meu espaço... -,

Por mais que tu te condoas

Podem-me ir faltando c`roas*,

Ir-me sobrando o cansaço,

Mas é daqui que eu te traço

Poemas - nem sempre loas... -

Pr`a ti, pr`a mais mil pessoas

Que cuidem disto que faço

E encontrem, no seu regaço,

"O Verão de coisas boas"...

 

 

X

 

Tudo, porém, tem seu fim,

Neste mundo milenar

Que é mera esfera a girar

Sem esperar por ti, por mim,

Ou por quem nem pense assim...

Amigo, é de aproveitar

Pois não veio pr`a ficar

E o V`rão, neste jardim,

É tal qual como um jasmim

"Que o Outono há-de levar"...

 

 

Maria João Brito de Sousa - 21.06.2016 - 16.59h 

 

In Horizontes da Poesia VIII, Euedito, 2016

 

* C`roas - Dinheiro

 

 

 

 


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Sexta-feira, 2 de Setembro de 2016

SEM LIMITE... (A Monforte)

Monforte.jpg

 

Cidade, eu mal te conheço...
Vi-te, era ainda criança
de melena armada em trança,
mas, cantar-te é bom começo
para o tanto que te peço
quando te ofr`eço a aliança
de escrever-te tendo a esperança
de, ver-te, ó terra sem preço,
pr`á qual um pedido teço;
Haja, em ti, franca abastança!


De ti, chegaram-me imagens,
descrições, memórias de outrem,
mas crê que te quero bem
e, vindas dessas paragens,
duas medalhas, quais vagens
dum fruto que de ti vem,
concedido por alguém
que leu as breves “mensagens”
que recordo, entre clivagens
do que a memória contém...


Fiz, não sei se bem, ou mal,
versos à fonte velhinha
que me disseram rainha
do teu largo principal,
que é dif`rente e quase igual
à bonita fontezinha
que ao povo se dá, fresquinha,
na minha terra natal
que, a partir da capital,
floresceu, formando a “Linha”...


Se algum dia, tarde ou cedo,
conseguir ver-te, Monforte,
-possa eu ter saúde e sorte! -
então te direi, sem medo,
que já vai sendo um degredo
viajar, pr`a Sul, ou Norte,
pois nada tenho de forte...


Nem “papoila”, nem “rochedo”,
como cantei, de arremedo,
só pr`a "fazer frente” à morte...
mas, conforme te dizia,
bem gostava de te ver
e de ficar a saber
se, de Inverno, serás fria,
no Verão, que calor faria
na praça, ao entardecer,
e aonde ir para comer
quando a barriga vazia
me inquirisse onde acharia
pitéu que a pudesse encher...


Quero crer que disse mais
do que o bom-senso permite
e a lucidez não me admite
tantas “tiradas” verbais,
portanto, e tarde demais,
vou-me embora antes que hesite
e, ainda que em verso evite
retratos dos mais banais,
deixo os meus traços gerais;
Como tu, sou... sem limite!

 

 

Maria João Brito de Sousa -01.09.2014 – 22.25h


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Terça-feira, 26 de Julho de 2016

ESBOÇO DE JUSTO PROTESTO EM DOIS BREVÍSSIMOS ACTOS

David_-_The_Death_of_Socrates - Jacques-Louis Davi

 

(Décimas)



I

No punho de aço da luta,

No despique das cigarras,

Nesta estaca a que me amarras

Por boa, ou por má conduta,

Nesta constante labuta,

Eu, que desdenho das "farras",

Preparo as pontas das garras

Pr`á defesa - ou pr`á disputa... -

E atenta, ponho-me à escuta,

Do ribombo das fanfarras!



II

Ah, trovador que me narras

Na narrativa impoluta,

Distanciada e resoluta

Com que tanta vez me "agarras",

Faz das cordas das guitarras,

Seta certeira, arma arguta,

Que há sempre um filho da puta

Capaz de jurar que escarras,

Sempre que derrubas barras...

Venha a taça da cicuta!



Maria João Brito de Sousa - 26.07.2016 -18.12h

 


Imagem : "A Morte de Sócrates" -  Jacques-Louis David (1783)



 


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